sexta-feira, 21 de março de 2014

As regras da atração

Recentemente eu li um pequeno artigo em um site americano que se chamava algo como 9 conselhos velha-guarda para mulheres serem mais atraentes para os homens. Eu esperava um "te peguei" no final, mas o autor estava falando sério... Inspirada por ele, escrevi minha resposta (também publicada no mesmo site hoje) segue abaixo a tradução (se você puder, leia o original, confesso que minha tradução não foi a melhor...)


Tendo nascido no século XX em uma família que poderia ser considerada bastante avant-garde, eu nunca precisei pensar sobre os papéis tradicionais de gênero. Os meus pais têm carreiras igualmente importantes e sempre compartilharam as contas da casa. Suas habilidades culinárias são idênticas (ou seja, nenhuma) e minha mãe pagou por tantos jantares quanto o meu pai. Ele, inclusive, nunca pareceu se sentiu emasculado com isso - na verdade, sempre curtiu um jantar all inclusive (quem pode culpá-lo?). Mas, aparentemente, os papéis tradicionais de gênero estão voltando com tudo, seja no Brasil ou no além mar- moro na França e os conservadores aqui estão enlouquecendo sobre educação igualitária.

Compilo aqui algumas dicas para o homem comum que quer se manter atraente para a mulher do século XXI, sem precisar voltar ao tempo das donas de casa. 

1 . Faça contato visual

Mas olhe nos meus olhos, encarar meu decote não conta.

Pelo que tenho lido por aí, homens podem sofrer de uma dificuldade de controle na presença do sexo oposto, sobretudo se elas estão vestidas de forma sexy. Seja um homem e prove que é mais forte isso, controle seu pescoço e mantenha seus olhos longe do meu decote!

2 . Seja grato

Quando eu era criança aprendi a musiquinha « com licença, por favor, me desculpe, obrigado, são as 4 palavrinhas que me fazem educado ». Então, sim, nós apreciamos quando você agradece o garçom por repor seu drink, ou quando alguém segura a porta para você.

Importante: Se uma mulher oferece para pagar a conta, sorria e agradeça. Ela não está tentando te emascular, e se isso te faz sentir menos homem talvez seja hora de consultar um especialista .

3 . Mantenha seu cabelo limpo

Tendo vivido em França e os EUA, eu achei estranho que alguns homens não gostam de tomar banho todos os dias. Então, por favor, se você tem cabelo curto ou longo, isso realmente não importa, desde que você o mantenha limpo e cheiroso.

4 . Aprenda a costurar, bordar e passar ferro 

Certa vez um rapaz costurou parte do meu vestido que acabou rasgado depois de um encontro (não precisamos entrar em pormenores.) Eu ia trabalhar na manhã seguinte e se não fosse por ele eu não teria nada para vestir. Foi amor à primeira agulhada!

Mulheres não vêm com habilidades inatas em costura e passamento de roupas. Eu particularmente evito comprar roupas que precisam ser passadas, primeiro porque sou péssima, e segundo porque eu realmente não tenho tempo. Então se você quer isso feito corretamente existem duas opções: terceirizar o serviço, ou fazer você mesmo . Seja um homem e cuide de suas roupas!

5 . Vista-se bonito o tempo todo

Sair de casa de moletom pode até ser confortável, mas emana aquele energia de tô nem aí, e isso não é atraente para a mulher moderna. Gaste 10 minutos a menos no facebook, na playboy etc e pare para refletir sobre o seu figurino.  Vestir-se bem faz maravilhas para todos os homens. Mesmo se você não é última coca-cola do deserto, estar bem vestido vai te fazer ganhar muitos pontos a mais.

E lembre-se: você pode encontrar a mulher dos seus sonhos no caminho do supermercado.

6 . Aja como se a satisfação dela na cama é garantida
Até cerca de 50 anos atrás as mulheres não eram autorizadas a desfrutar do sexo - essa liberdade sexual feminina tem pouquíssimo tempo se pensarmos que os homens nunca foram proibidos de gozar no final, portanto se esforce para que ela realmente aproveite ao máximo.

Todo mundo sabe onde o clitóris fica, e se você não sabe, não é nenhum crime pedir indicações, muito pelo contrário! Você nunca vai errar concentrando-se em agradar sua mulher.



7 . Recompense sua mulher por ser viril.
Um dos melhores elogios que eu já recebi de um homem foi: você não tem medo ? (sim, eu sei que é uma pergunta, mas eu me senti muito bem em ser vista como alguém tão valente).  Anos prezas às tarefas domésticas, muitas mulheres nunca aprenderam a fazer muito mais do que isso.

Felizmente na minha casa eu tive a sorte de ver minha mãe operando a furadora e meu pai lavar os pratos - a regra era fazer o que você preferia. Portanto, da próxima vez que a sua menina, levantar pesos, montar móveis, consertar o encanamento, reconheça seu trabalho.

8 . Mande mensagem ou ligue de volta imediatamente (se vc estiver interessado claro). Demonstre interesse e seja vulnerável.

Uma vez eu conheci um cara que depois de trocarmos telefones me disse: eu vou te ligar amanhã, eu não sou do tipo que tem que esperar 2 dias para ligar. Naquele momento eu soube que ele era para namorar. (E sim, ele me ligou no dia seguinte, e todos os subseqüentes enquanto o nosso romance durou). Vulnerabilidade é lindo e realmente poderoso. Seja receptivo. Dê elogios. Mostre entusiasmo. É atraente e viciante.

9 . Prepare aquele sanduíche para ela.

Há poucas coisas mais eficazes do que cozinhar para uma mulher, ou para qualquer outra pessoa. Isso mostra o seu domínio sobre a esfera doméstica. E finalmente, nada é mais sexy do que um homem que sabe cozinhar (pergunte a qualquer mulher) .


Com tanto Jamie Oliver e afins na TV e os tudogostoso  na internet, é muito fácil fazer alguma coisa. Não há desculpas. E se você for bom no que faz, tenha certeza que ela vai voltar para mais.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

No dia que eu troquei o acarajé por uma fatia de torta.

De vez em quando me aventuro a falar de temas que saem da minha simples vida de estrangeira-estudante na cidade luz e termino falando da comédia que é minha vida amorosa. Recentemente me disseram que eu devia fazer um texto politizado, sobre machismo, sobre feminismo e as minhas relações amorosas. Pensei em escrever sobre aquele ex que organizou em planilha excel todas as suas bitches com direito até a nota, pensei ainda em escrever sobre aqueles sites que advogam os direitos dos homens (dos homens sexo masculino) pois esses se sentem oprimidos em uma sociedade pós feminista, onde as mulheres tem tudo e os homens nada. Por sinal se alguém conhecer esse lugar troco o saldo da minha conta por uma passagem só de ida... Poderia falar que enquanto um jovem rapaz durante uma sessão de tortura à base cera quente, laser e pinças em suas partes íntimas não tiver escutado para ser bonito tem que sofrer, não dá para defender que os homens são o segundo sexo. 
Enfim, o tema é grande e dá para escrever um romance só dizendo o que eu poderia falar.
Porém, algo tão simples e corriqueiro aconteceu na minha última visita ao Brasil - que foi um pouco além das minhas tias e seus relógio biológicos (que por sinal meu irmão não tem) - chamou tanto a minha atenção  quanto opressão masculina em tempos feministas. 
Num belo dia de verão naquela capital baiana em que o cheiro de dendê está em cada esquina e o Astro-Rei acaricia nossas faces (antes da onda de calor em que essas carícias se transformaram em tapas), eu não fui ao Porto comer acarajé, nem ao Bonfim pedir proteção, mas a uma casa de chá comer um bolo. 
Ar-condicionado, cadeiras confortáveis, garçons, nada de dendê, nada de fitinhas coloridas... Eu e meu pequeno-grande irmão saboreamos tortas doces e salgadas, refrigerantes e coxinhas, das quais me arrependi na primeira tentativa de entrar no biquini brasileiro. 
Barriga cheia, é hora de pagar. A conta chega e o garoto, muito esperto como é, lembra-me daquela quantia que o devo e que não perdoará. Chamo mais uma vez o garçom, aponto para o valor total da conta. Da minha carteira tiro o cartão e entrego-lhe, ele, por sua vez, insere o cartão na máquina e entrega para o homem da mesa que, desconhecedor da minha senha secreta, não entende o que está acontecendo. Olho para o garçom e pergunto:  
- Foi eu quem deu o cartão, como é que ele saberia a senha? 
O pobre garçom, envergonha-se da sua terrível gafe, um pouco sem saber o que dizer, responde titubeante :  
-Mas, é... eu coloquei o valor total!
Talvez eu devesse ter recusado a pagar os 10% nesse momento, mas grunhi algo como eu estou pagando a conta toda e parti. 

Nesse mundo pós feminista, em que homens vêem seus direitos tolhidos em prol de uma sociedade pautada nos diretos para as mulheres, a idéia de que  o homem do outro lado da mesa saiba a senha do seu cartão é menos absurda do que uma mulher pagar a conta toda.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Gargalhadas e Lágrimas ou o Amor em 3 atos

Depois que o tempo passar e tudo que um dia foi triste é agora engraçado descrevo aqui um cena baseada em fatos reais. Afinal certamente um amigo meu me aconselhou escrever um blog sobre os homens da minha vida.

Ato I

Ela no bar olha para todos os lados como procurando alguém. Ele aparece olhando-a fundo nos olhos. Ela solta um ligeiro sorriso.

Um amigo: Ela, esse é Ele.
Ela: Prazer.
Ele: Prazer. Você vem de onde?
Ela: BraZil. E você?
Ele: Daqui mesmo. Você tem um sotaque muito sexy... Me ensine algo em brasileiro!
Ela: Brasileiro não, português. O que você quer saber? Oi, tudo bem?
Ele: Não, algo mais elaborado. Algo como: eu quero te beijar agora.
Ela (desconfortável, engole seco e ensina a frase em português).
Ele: Porquê você não se levanta?
Ela (se levantando): ok, ok. Estou de pé...
Ele: Nossa, você é baixinha!
Ela: Bom posso sentar de volta então.
Ele: Não, não... (Enquanto a deixa encurralada, espremida entre ele e o parapeito)

Ela olha para todos os lados, um pouco presa, um pouco desconfortável, ele, mão em sua cintura continua a olhar fundo em seus olhos, os lábios se tocam

Ato II

Ele e Ela de mãos dadas, caminham, sorriem na rua.

Ela: Mas quando eu for embora?
Ele: Eu não posso manter uma relação à distância.
Ela: Mas...
Ele: Poderíamos ser amigos no Skype.
Ela: Não, nós não somos amigos.
Ele: Então não seremos amigos no Skype.
Ela: Gosto de você, vou sentir sua falta... Talvez se...
Ele: Eu preciso te dizer algo.
Ela: Diga.
Ele: Eu... Deixa para lá!
Ela: Fiquei curiosa! Agora tem que falar!
Ele: Depois, mais tarde...
Ela: Poxa, você hein! Muita sacanagem me deixar na curiosidade, para quê começar algo... (Ri.) Enfim não quer falar não fala!
Ele: é por isso que te amo...

silêncio

Ela : Você disse que me ama? (ri)
Ele: Sim...
Ela (o abraça e ri): (baixo no seu ouvido) eu acho que te amo também...

Ato III

Ele e Ela.

Ela está na saída do metrô, aprecia aquela belíssima arquitetura a seu redor, pela primeira vez chegou na hora e Ele atrasado. A vida realmente é uma bela piada.

Ele chega, a beija rapidamente, é a chuva talvez, caminham pela rua molhada enquanto gesticulam animadamente discutindo as últimas novidades das vidas cotidianas. Chegam num bar e sentam-se em uma mesa. Ela vai beijá-lo. Ele afasta-se.

Ela: o que há? 
Ele (indeciso): Sabe Ela, o que você deixou na minha caixa de correios me tocou muito.
Ela (sorri): Ora, não foi nada!

(Entra o Garçom)

Garçom : Vocês já escolheram?
Ela : Uma taça de tinto, por favor.
Ele (titubeante): Para mim também.

(O Garçom sai)

Ele: Mas eu fiquei muito tocado com o que você fez, foi muito bonito. E isso me fez pensar... Eu vou te dizer isso porque te amo muito, muito mesmo. (Entra o Garçom e coloca duas taças de vinho sobre a mesa. Garçom sai) Eu não estou pronto para isso.
Porque se eu não te amasse eu não me importava, não daria a mínima, mas como te amo eu me importo com você.
Ela (toma um gole do vinho) : hum, ok então.
Ele : Mas você é uma pessoa genial! E esse tempo com você foi fantástico, acho que a gente pode desenvolver uma verdadeira amizade.

Ela : Desculpa mas não.
Ele : Não? Mas por quê?
Ela : Olha, foi legal, foi lindo e etc. Mas aí não dá, para mim não dá.
Ele: Mas e todo esse tempo que a gente passou junto, os momentos que vivemos, as conversas, as...
Ela: ...foi tudo ótimo, muito bom, mas Ele, não dá para você ter tudo né. Claro que você quer ser meu amigo, eu sou ótima! Mas aí você vai ficar feliz e contente com essa amizade e eu quebrar a cara. Obrigada, mas não obrigada.

Ele :  Eu queria muito que você pudesse ir para meu espetáculo, queria muito ouvir o que você tem a dizer.
Ela: É, mas não vou mais não. No dia que você apresentar aqui nessa cidade eu vou, mas daí a viajar para ver, eu não sou mais sua namorada.
Ele : E o espetáculo que você está preparando, eu tenho certeza que vai ser maravilhoso, eu queria tanto poder ir ver...
Ela: E você pode! Você será bem vindo...
Ele: Mas preciso de uma forma para saber... Será que posso pelo menos ser seu amigo de Facebook?
Ela: Claro. Você também não virou meu inimigo!

Ele toma um gole do vinho, uma lágrima escorre pela sua face

Ela : Você está chorando? Você está terminando comigo e você está chorando? (ri)
Ele (lágrimas escorrem pela sua face) : Sim... e você está rindo! Você está tendo seu coração partido, e você está gargalhando!





terça-feira, 17 de dezembro de 2013

E quando bate a meia-noite?

Quem já ouviu falar em relógio biológico?

Na minha infância o relógio biológico era o que te fazia levantar da cama sem despertador, acordando na hora que seu corpo pedia e dessa forma passando o resto do dia feliz, leve e disposta.

De repente você cruza a linha que divide a adolescência da adultescência, não que eu me sinta uma adulta aos 25 anos dependendo do paitrocínio mensal que me sustenta em terras francesas - e ele começa a fazer mais parte da sua vida do que nunca. Por vezes comparado com o boi da cara preta que assusta as criancinhas: o relógio biológico vem aí! Pega essa menina que tem medo de careta!

Mas, eis que em um belo dia de outono ou primavera (a depender do seu hemisfério) você retorna para terras familiares, pelo breve instante de uma semana, e há toda uma expectativa em torno das suas conquistas. É aí que o conceito de relógio biológico realmente muda, pois agora ao invés de ser seu horário natural de abrir os olhos e sair da cama, transforma-se, ele mesmo, em irritante despertador que te obriga a sair dela às 6h ou fugir do baile à meia-noite.

Seus muitos amigos já ouviram esse badalo e correm com suas abóboras e camundongos. Sua tia capaz de escutar não só o próprio alarme biológico, mas como de prever o alheio também, olha para você com um leve sorriso condescendente: você diz isso agora minha filha mas quando o relógio biológico bater... (enquanto bate freneticamente no seu próprio relógio, movido a bateria por sinal).

A madrinha, que de fada tem muito pouco, dá o pontapé inicial naquela conversa que te faz pensar que o alarme apitou e você, querida, colocou em modo soneca.

- Está namorando, minha filha? indaga-me muito desinteressadamente. Que nada, tia. Respondo querendo gerar ainda menos interesse. 

(pausa dramática) ...

- E você tem quantos anos mesmo? ... vinteecinco

(pausa mais dramática, seguida de olhar de pena e mudança brusca de assunto) ...

Talvez eu esteja enganada e ela seja sim a  personificação da fada madrinha à la Cinderela, que, depois de te dar todos os elementos para a diversão, vem te avisar que a festa só pode ser curtida até meia noite... pois ao badalar do relógio você vira abóbora e que príncipe vai querer comer abóbora não é? (um príncipe vegetariano, penso eu). E é à meia-noite que sua carruagem murcha, seu vestido se torna um avental, e seus cavalos, meros camundongos. É esperando o badalar do relógio que fica a pobre Cinderela, a festa toda, na iminência desse som que avisa que festa não acabou, mas, me desculpe, você não está mais apta a participar dela. Afinal uma vez apitado o relógio biológico nos transformamos em gatas borralheiras e toda a mágica se esvai...

Pobre Cinderela, a quem não ensinaram o botão soneca, para fazer dormir - de preferência em sono eterno - o irritante badalar do relógio, e quem sabe permiti-la a curtir o badalo da festa. Sem bicho papão, sem sapato de cristal nem nada, saboreando lentamente o seu doce de abóbora...





Ainda bem que meu relógio veio sem bateria...

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Vivendo fora de casa, ou melhor, dentro da SUA casa

Quando era adolescente, sempre sonhava em um dia morar com a melhor amiga, sair do manto materno e ir desbravar outros mundos, ou melhor outras cozinhas, banheiros e horários de almoço...

Claro que antes disso tudo a gente sempre esquece que fora do recanto da mamãe a louça não é auto-lavante, a roupa de cama não é auto mutante, as refeições não tem tanta qualidade... Mas esse dia sempre chega, e aos 18 anos ao invés de sair da casa dos pais, foram eles que saíram da minha, voltaram para o "interior" me deixando sozinha em um ap de adulto, em nobre bairro soteropolitano. Pobre menina rica, 3 quartos para escolher um por dia onde dormir, a empregada vinha todo dia, quase uma babá, cozinhava, limpava, lavava, restava a essa pobre pós adolescente pagar as contas e tudo magicamente funcionava. A vida sozinha era belíssima!

Mas tudo que é seguro um dia acaba, e a gente bate asas para longe, para o outro lado do oceano de preferência. E para qualquer criança da década de 90, dividir um apartamento é o sonho: o dia a dia dos sitcoms americanos, amigos presentes em seu espaço compartilhado, risadas, bebidas, diversão, tudo parece a perfeição. 

Oh! o dia-a-dia real, você o nota quando está carregando um sofá em uma escada estreita, em seguida um armário de 50kg, e se encontra na madrugada montando móveis IKEA com manuais de desorientação.

A vida não tem mais regras, e Paris é sim uma festa, brigadeiros na madrugada, garrafas de vinho na segunda-feira. O problema é acordar na terça e descobrir que as garrafas não aprenderam o caminho da rua, o brigadeiro frio na panela já não tem mais charme e aquela fruta que você prometeu comer exala um odor estranho na geladeira e você não sabe de onde vem. De repente seu saco de roupa suja ultrapassa o de roupa limpa, e você termina saindo assim com aquele figurino meio úmido, meio amassado que acabou de sair da máquina. Eis que você vira sua mãe, fazendo para seu roommate a mesma piada que ouviu toda sua infância: "você é filha do dono da coelba?" (COELBA era a empresa de eletricidade da Bahia na minha infância). 

Compartilhar o espaço não é um seriado americano, primeiro porque ninguém tem dinheiro para pagar um apartamento grande e bem decorado, seja ele em dólares ou em euros, principalmente se seu emprego é quase inexistente. (Exceto quando seu sofá fica realmente preso na escada) Mas é saber que nem todo cabelo que entope o ralo é seu, encontrar a pia transbordando quando tudo que você quer é um copo com água, receber visitas depois de um pé na bunda quando tudo que se quer fazer é correr e chorar num canto. É aprender a abrir mão e ser assertiva, reclamar sem explodir e conseguir ficar quieta sem implodir. 

Porém, se "o inferno são os outros", vale lembrar que o paraíso é um tédio e aos vintetantosanos ninguém quer viver no branco profundo ao som de uma harpa. E é no vermelho intenso que a gente encontra o calor, o calor humano de um abraço inesperado, de uma risada compartilhada, de saber que ninguém vai te deixar chorar sozinha pelos amores mal resolvidos (e sim, eles são muitos), mas talvez te impulsionem a abraçar o capeta enquanto se entope de brigadeiro, é sempre ter alguém para dividir o brigadeiro na madrugada (e dessa forma ter certeza que sozinha não engordará).

A vida fora do ninho não é cor-de-rosa, e às vezes dá sim vontade de pedir penico.  Abrir mão de tudo para poder acordar e encontrar um espaço impecável, enquanto a vovó pergunta: "o que você quer almoçar hoje?"

Mas em meio a todo o caos, toda a implosão, e toda a diversão que fazem você sentir que nunca sairá dos seus vinte e poucos anos e se metamorfosear em adulto de verdade, você se pega pensando que se essa vida assim não estava nos seus planos, você não a trocaria por nenhuma outra. 

Corrigindo: se as garrafas soubessem o caminho da rua tudo seria muito melhor....

domingo, 13 de outubro de 2013

A letra fora do alfabeto

Em uma bela quinta feira pós verão tudo que outrora estava acertado, pago e definido desfez-se. Havia uma passagem para aquela grande maçã, cenário de intensas paixões de verão. Bom preço, pensava, passagem barata, me sentia a grande sortuda! Porém paixões acabam, e na quase véspera da partida, nem sofá havia sobrado do grande amor de outrora. E o que era barata virou cara, imutável, invendável, não rembolsável. O bolso e o coração duelavam. 


Vai! Vai! Vai! Vai!

Não Vou!



Não fui! 

E, como ainda diz a canção: amor só é bom se doer, pergunte para o meu saldo bancário que estava vermelho de dor. Encontrava-me sem casa, pois enquanto acreditava que ia aluguei meu quarto, passagem desmarcada, arrumei as malas, mudei para a sala. 

Coração partido, conta quebrada, espremida no sofá cama, facebockiando minhas desventuras descubro amigos daquela mesma grande maçã vindo ao velho mundo: uma carona para Zurich? 
Por que não, me pergunto, a mala está pronta, já estou no sofá mesmo, porque não troca-lo por um Suiço. Assim sem aviso prévio, sem programação, sem lenço nem documento, num céu de quase dezembro, eu fui.
Pulei no carro com um quase estranho, quase conhecido que em breve seria amigo. 
- Pararemos em Lyon primeiro, me disse. Topo tudo, respondi.


Uma vez que o plano A havia falhado, e os planos B, C e D não tinham a atratividade daquela primeira vogal. Eis que o inesperado acontece, que te impele apenas a dizer sim e mostra que tudo não passa mesmo de uma folha em branco, tudo pode ser redigido, riscado, pintado, mas se a tinta é permanente, o número de folhas é ilimitado.

Em Lyon, adentro em um albergue espanhol, um grande apartamento, jovem, caótico, artístico. Música toca, pós adolescentes enroscam-se nos sofás, fumando, bebendo, pintando, fazendo música, cozinhando. Peregrino pela cidade com esses estranhos e amigos, jantamos um jantar preparado à 20 mãos, todos colaboram, dessa forma o acerto é coletivo. A noite chega, nos espalhamos por aí, dorme-se no quarto, no colchão, na sala, na cozinha ou no chão.



Lyon
No dia seguinte, malas refeitas, pulamos no carro seguimos para a terra de Dada. Para cada quilômetro de túnel seguia-se uma bela paisagem: montanhas, lagos, cada curva uma surpresa. Em Zurich fui acolhida por aquele abraçaço que tanto precisava, mas não pedia, sequer sabia. Sorrisos, historias compartilhadas, vinhos, maçãs, fondues. Embarcamos num trem rumo ao topo da montanha, uma bela vista nos esperava. Nos encontramos no centro da nuvem, um branco infinito nos rodeava, como aquela folha, repleto de possibilidades. Não há tempo ruim suficiente para sufocar o riso, evitar as fotos, matar os abraços. No retorno tomamos o barco a vapor rumo à belíssima Luzerne e sua ponte de madeira. Um chocolate quente, um café irlandês, um alemão mal falado. Passeio pela cidade do Dadaísmo, igrejas, lagos, salsichas e mostarda, a chuva e o frio não nos impedem de aproveitar cada momento, perdidos nas pequenas ruas. Foi com uma pizza e um abraço apertado que me despedi da evil crew, que se formou em um verão, assim tão aleatoriamente quanto essa viagem. 



O horizonte branco. Foto por: Steve V Peralta

 Se eu não parti para cidade que nunca dorme, foi ela que veio até aqui perturbar meu sono, colar o coração, com cola de maresia, com abraço de amigo, com gargalhas sem motivo. Retornei à cidade luz renovada, preparada para mais uma, para mais várias, para o inesperado e a aventura, em busca das folhas em branco.

Aquilo que nem era plano nem nada, não era nem possibilidade, transforma-se na mais bela aventura. Nada pode dar errado, afinal não há expectativa, nem check list, não existe certo. Finalmente joguei fora os planos de A à Z, e pulei naquele que nem existia mas que apenas era...

Meu destino não traço,
Não desenho, disfarço,
O acaso é o grão-senhor.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

500 days of winter

Meus dois anos de França se completam, na verdade até um pouco mais. Nesses mais de 500 dias de Paris eu vivi de tudo, sobretudo o inverno cinza que dura mais do que os três meses destinados a ele no calendário. Vi dois verões, duas primaveras, um sol apenas, inúmeros vinhos e 3 amores, cada um de um canto do globo, cada um tão diferente e igual como apenas os amores impossíveis podem ser. E agora o número 3 chega a seu fim, e assim como estive em outubro de 2011, me encontro em outubro de 2013, ouvindo um Grande Amor de Chico.  Outrora estive na mesma situação, sem saber se vou ou se fico, mas era do país do carnaval que partia, o coração na mão e as esperanças como guia, partido ficou o pulsante coração que nem sempre se contenta em bater e apanha muito mais do que devia, mas talvez não tanto quanto gostaria. 500 dias depois, com direito a 90 de amor possivelmente impossível cuja dor de cotovelo nada mais me rendeu que um corpitcho bacana para aproveitar o verão soteropolitano, me encontro aqui na mesma situação que quando cheguei.
As vezes penso que se fosse marinheiro era eu quem tinha partido, me esquecendo de que quem partiu fui eu, desta vez foi daquela grande maçã, que arrebatou-me como outrora essa velha Paris fez. Parti, com o coração pulsante na mão, sorridente dizendo não mais apanhar, sou forte agora! Pronta estava para a nova aventura, voltaria àquela que nunca dorme, para amar aquele em cujos braços eu poderia repousar em paz. E eis que a vida vem, e esse vento, o qual me pergunto tanto de onde vem e para onde vai, leva até o último grão da frágil paixão, que eterna foi enquanto durou, mas que foi tão efêmera quanto uma vela numa tempestade. Mal sabíamos que infinito é apenas o oceano que separa os amantes, e foi com juras do poetinha que nos portões de embarque selávamos o destino, talvez sabendo mais do que deixávamos transparecer.

Juraram deixar-se quando o amor acabasse, que seja eterno enquanto dure, disse ela, e se durar para sempre melhor, completou. Lágrimas rolavam enquanto chineses, japoneses, franceses e alemães embarcavam para destinos mil, como não amar a paixão impossível do americano e da brasileira? E tanto amor pergunta-se logo se era um pelo outro ou pelo amor mesmo, que só era porque não poderia ser. E a resposta jamais teremos, pois não foi, nem jamais haveria de ser. Não houve tecnologia, nem Iphone, nem passagens compradas em impulsos infantis que permitiu aos amantes tocar o platônico. 
Mal sabem eles que talvez assim, sem jamais verem o amor esvair-se no dia a dia dos casais, nas contas, nas brigas, nas manias chatas, tenham guardado para si o melhor. Esvaiu-se sem se ver, ou melhor, foi derramado ao longo dos milhares de quilômetros que os separava, repousando no fundo do salgado mar que conta agora com as lágrimas choradas e as aventuras jamais vividas dessa brasileira parisiense, e daquele americano... 
Saying good bye

terça-feira, 7 de maio de 2013

E depois dizem por aí que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar...

Às vezes coisas ruins acontecem e de uma forma tão estranha que a gente tem que se perguntar se não estamos vivemos dentre de um roteiro bem amarrado de filme americano, algo como o Show de Truman. O cara lá em cima o roteirista geral e a platéia principal, come pipoca e bebe coca-cola enquanto se diverte com a comédia dos erros dessa pobre mortal.

Estava eu levando minha vidinha normal, alguns tédios aqui, algumas decepções ali, algumas alegrias também por acolá. Em uma sexta-feira primaveril eis que me ponho a passear, um jantar no chinês, seguido de um bar francês metido a africano, com um passeio pelas bordas do canal Saint-Martin, cenário da Amélie Poulain. A vida parece até que está cor de rosa.

Antes de voltar para casa um barzinho final na rua da boêmia parisiense, o bar cheio, passo me apertando entre uns e outros, uns homens bonitos e outros não tanto, cruzo olhares com uns olhos azuis luminosos e penso para mim "mas que eu queria eu queria", peço a cerveja, acomodo tudo muito bem dentro da minha pequena bolsa, estilo carteiro fechada a zíper, uma paquerada aqui outra ali. Atravesso a multidão para chegar até o  meu amigo que me esperava. Multidão atravessada, me sinto leve. 

Sim, muito leve, leve até demais, não, não estou leve metaforicamente : a bolsa está aberta e carteira foi levada. Como? sem entender o que acontecera falo muito tranquilamente, pegaram minha carteira. Entorpecida por aquela situação, não entendo o que me aconteceu, 
- como assim, quando?
- agora, entre o bar e aqui. 
- mas como? quem?
- não sei, fui furtada, pelo menos não tinha dinheiro...

Engulo a amarga cerveja, fruto da minha última operação bancária, vamos embora, preciso bloquear o cartão.

- você não precisa de dinheiro? já vou responder amanhã eu saco, quando me toco que não tenho cartão, nem tenho mais titre de séjour, nem carteira de estudante, nem mesmo carteira. Uma sem papel. Enfim, como se estivesse fora de mim vou caminhando, mendigos me pedem dinheiro na rua, apenas respondo acabei de ser roubada, e um olhar de pena e compaixão recai sobre mim. Cartão cancelado, não há muito mais dano a ser feito, me falta prestar queixa.

Dirijo-me então à delagacia no dia seguinte, o endereço apontado pelo google maps, advinhe, estava errado e me fez caminhar alguns quilometros além do necessário. Descubro então que sim a delegacia do meu bairro pegou fogo e está atendendo em outro lugar. Delegacia vazia, três pessoas na minha frente, talvez o sábado não será tão perdido, ledo engano, 3h de espera para dar uma queixa de 10 min. 
Me restou aproveitar o domingo no parque.

Segunda feira, após a tediosa aula matinal, sigo para refazer meu titre de séjour, afinal como boa estrangeira que sou, ficar sem papel por muito tempo pode ser um risco. Fui no endereço indicado : não senhora, estudante é lá do outro lado da cidade, você precisa marcar com antecedência! - mas minha senhora, viajo em um mês. Um simples levantar de ombros deixou bem claro o espírito nem aí da senhora. Telefonei para os responsáveis que visto minha situação me mandaram ir sem hora marcada nem nada. Cheguei. Não podemos fazer nada pela senhora, outro titre demora um mês e não nós não entregamos recibo para pegar duplicata de visto. Mas eu viajo moço, eu passo três meses fora, e eu preciso voltar. - Não posso fazer nada, madame.

Enfim, graças ao advento da internet no celular, vou já marcando meu horário para o quanto antes que para a minha sorte era o dia seguinte. No metrô enfurecida por tanto vai e vem na cidade luz converso com um amigo. 

Péééé! 

toca o alarme da porta que fecha, e sinto apenas alguém violentamente puxar o celular da minha mão o que estará acontecendo, pensa meu cérebro, enquanto meu corpo puxa de volta o aparelho. Na queda de braços, claro que não sou a mais forte, comigo resta apenas um fio partido. Sem saber em que língua me expressar, um grito de pavor sai de minha garganta - aaah!, um senhor ao meu lado tenta pegar o ladrão, a bagunça impede que a porta do metrô se feche e todos tentam, sem sucesso pegar o sujeito, que teve seu casaco perdido e relógio quebrado em tanta confusão. Procuro para ver se deixou para trás meu precioso objeto de comunicação, nada. Entorpecida pego o metrô, não sei mais onde estou e que raio me atingiu essa vez, se fúria divina existe fui vitima dela, mas porque, meu deus? Pago com juros de bancos brasileiros e adiantado por todos os pecados que ainda hei de cometer. O trajeto de volta para casa nunca pareceu tão longo...

Em casa chegou e ligo para aquela cuja função é a de dar colo, fui roubada, de novo! Um email recém chegado na minha caixa de entrada : Marcelle, me ligaram da polícia, acharam seu celular! 
Bom nem sempre pouca sorte é azar! Volto em cima do rastro, meus 40 minutos de metrô abraçada na bolsa, imagina se agora é a vez dela? La na delegacia, sou assim a vítima do roubo, a senhora está bem, se machucou, reconhece o celular, e o meliante, aceita um cookie?

Queixa assinada, retorno para casa. A maré de azar só pode ter passado, no dia seguinte iria pedir a duplicata dos documentos, para deixar de ser sem papel. Se bem que dois boletins de ocorrência em mãos, posso me considerar muito coisa, mas sem papel jamais! Ouço palavras de encorajamento : poderia ser pior! Pelo menos você está viva, pelo menos não foi um assalto! Claro que enquanto se está vivo sempre pode ser pior, mas isso não muda o fato de ser ruim, nem devemos agradecer por ter sido só um roubo e não um assalto, ou só um assalto e não um sequestro, e quando tudo acaba, ainda podemos dizer : pelo menos subiu para o paraíso e não desceu para o calabouço... No final, ta valendo ficar feliz por dias tediosos, afinal nada aconteceu...

Já em casa vou conferir, quando será que o novo cartão chega, afinal preciso poder acessar meu dinheiro. Saldo 1€. Como assim, me pergunto, não tinha tantas dividas a pagar... 

Lembra o primeiro roubo? Enfim resultados tardios devido à demora de processamento de saques bancários durante o fim de semana... 

Enfim, prever mais um dia na delegacia para fazer o boletim de ocorrência número 3. Tudo resolvido desde minha situação com o titre de séjour à queixa no banco... Voltando para casa num dia tão primaveril quanto aquele em que tudo começou, um chinês aleatório na rua sorri e me diz :

- Feliz Ano Novo

Para quem achava que eu não entedia ironias, essa não deixou dúvidas...


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma crônica francesa


Domingo de sol, após um longo inverno que parecia não ter fim eis que o Astro-Rei dá as caras. Acordo, olho pela janela do quarto, temo abri-la e acordar a família de pombos que moram no batente. Não que eu seja uma defensora dos animais, longe de mim defender esses pombos que de paz não tem nada e moram sem pagar aluguel na minha minúscula casa. Mas meu medo de um ataque digno de pássaros hitchockianos não me permite mexer nessa turma.

Enfim, arrasto-me até o banheiro e diferente de muitos franceses não apenas tomo banho como passo desodorante para evitar qualquer efeito colateral do tão esperado calor. Torradas prontas, comidas, acompanhadas daquele café que só uma boa nespresso é capaz. 

Em guerra com a preguiça e lutando contra a ressaca da noite anterior, decido que nada melhor que um passeio no parque, um banho de sol, enfim "nada melhor do que não fazer nada". Decidimos pelo mais celebre jardim, naturalmente minha companhia para o parque está atrasada, afinal é brasileiro! (não que eu estivesse pontual)

São 7h da noite, e o sol ainda brilha. Esse é um dos pontos mais altos do pós-inverno, a duração do dia. Dia bonito vou apreciar pegando um ônibus, ele chega, eu entro feliz :

- Bonjour Monsieur! Digo sorridente ao motorista.

Ele como todo bom clichê parisiense, enfezado manda que eu me corrija:  Bonjour não, bonsoir!

Como boa baiana que sou, nada mais justo que roda-la. Pois falei com esse francês que a gramática há de corrigir que eu falo o que eu quiser e como eu quiser!

Ele devia era ficar contente que eu tava sorrindo e mandando meu bom dia.

Ele enfim usou do poder que tem e retrucou :

-Mademoiselle (afinal mesmo grossos eles são educados) ou você sai ou o ônibus não sai. Pensei em responder, pensei inclusive em não sair e vencer pelo cansaço, e olhei que as caras parisienses blasés de outrora, começavam a encher-se de fúria.

Eis que no horizonte aparecia um outro ônibus, mesmo destino, rabo entre as pernas saí, Bonjour nunca mais...

*Baseado em fatos reais roubados de um amigo cara de pau...

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Respondendo (ou Imitando) o Olivier...


Tanto alvoroço em torno do francês, e vi tanta lista feita por brasileiros tão chateados com o que ele disse que resolvi fazer a minha. Não acho que a gente se comporte melhor ou pior que os franceses, apenas diferente...

A França por uma Baiana:

  1. Aqui na França você manda carta para tudo. Você manda uma carta para se matricular na faculdade, você manda cheque pelo correio, carta para cortar a linha do celular. No final é sempre sábio ter uma coleção de envelopes e selos em casa.
  2. Na França o ano pode começar em Janeiro ou Setembro e em Fevereiro se você é chinês...
  3. Nas padarias o funcionário pega o pão com a mão, enrola num pedacinho de papel e coloca em cima do balcão, depois disso já não tem mais muita importância se você vai colocar sua baguete em baixo do braço ou no porta-malas do carro.
  4. Aqui na França ninguém usa luva ou gorro na padaria.
  5. Aqui na França todo restaurante de comida japonesa pertence aos chineses.
  6. Aqui na França as pessoas pedem perdão o tempo todo, e não necessariamente da forma mais polida : na saída do metro enquanto te empurra freneticamente o cara grita: Pardon! por outro lado, qualquer contato físico não previsto com um estranho acarreta um gentil pardon. Eu sempre fico imaginando quantos pardon eles não diriam atrás de um trio elétrico
  7. Aqui na França ninguém tem empregada doméstica ou faxineira. A idéia de faxina é limpar até onde seus olhos vêem e seu braço alcança.
  8. Aqui na França todo mundo usa laquê o que resulta em vários garotos com penteados do tipo tomei um choque, com cabelos apontando para cima.
  9. Por isso todos os meninos parecem ser gays, apesar de nem sempre o serem.
  10. Apesar de ser o país do vinho, aqui na França todo mundo toma cerveja.
  11. Aqui na França os garçons só vem anotar seu pedido uma vez que você fechou o cardápio. Só para quando ele chegar você ter que abrir o cardápio de novo e procurar o prato que você vai pedir. Vai entender a lógica
  12. No supermercado não tem empacotador e você tem que agir rápido senão uma fila de pessoas furiosas te fuzila com o olhar. Ao mesmo tempo que você empacota suas compras, tem que ter o cartão pronto para passar, e ter terminado tudo quando a sua nota fiscal sair.
  13. Aqui na França você sempre recebe o troco mesmo que ele seja só um centavo, mas quando você tenta comprar algo com seus uns centavos todo mundo faz cara feia.
  14. Aqui na França todo asiático é chinês.
  15. Aqui na França onde você estudou conta mais que suas reais competências. Você pode facilmente ganhar mais que seu chefe só porque sua escola é vista como melhor.
  16. Aqui basta fazer um raio de sol que todo mundo vai para o parque. Em Paris como não tem praia não é raro ver gente de biquíni no parque se bronzeando.
  17. Aqui na França não tem muito shopping, na verdade os poucos shoppings comportam as lojas mais populares. Ainda que esteja no inverno todo mundo vai fazer compras na rua.
  18. Aqui eles produzem vário reality shows, de todos os tipos, tem um até para encontrar amor para agricultores.
  19. Aqui existem cinema que só passa filme dublado, tem francês que não gosta de ler legenda.
  20. Na França todo mundo estaciona muito mal. "Encostar" no carro da frente pode ser bater nele repetidas vezes para ver se o seu cabe na vaga.
  21. Aqui se come muita manteiga, no café da manhã se coloca manteiga e mel na torrada. A manteiga não se passa no pão mas se corta fatias e coloca encima. O croissant tem gosto de manteiga, mas ainda assim nunca vi mulheres tão magras quanto as parisienses.
  22. Fora a manteiga, no café da manhã só se come coisas doces : mel, geleia, cafe, suco, cereais.
  23. Aqui uma refeição completa comporta no mínimo três pratos : entrada, prato principal e sobremesa ou queijo.
  24. Em Paris também não tem gente gorda. Só turista.
  25. Aqui você não renova a carteira de motorista, quando perder todos os seus pontos você pode comprar mais.
  26. Aqui todo mundo dá dois beijinhos, inclusive homens, mas ninguém se abraça.
  27. Aqui eles tem uma forma de falar que é invertendo as palavras, por exemplo fête é teuf, femme é meuf, lourd é relou e por aí vai.
  28. Aqui eles podem expressar muito sem falar uma palavra, apenas deixar o ar sair da boca, o famoso "pff" francês. Uma conversa pode ser: - como como foi a festa?  ah pff…
  29. Aqui todo mundo conhece a banda carrapicho e a musica "bate forte o tambor"
  30. Aqui não existe uma palavra para namorada/namorado o pessoal usa copain que significa amigo. Sair com alguém por uma semana já o qualifica como seu copain, depois só varia o nível de comprometimento.
  31. Aqui se come pão com tudo, até com macarrão.
  32. Apesar de viverem numa das cidades mais lindas do mundo os parisienses reclamam de tudo, do tempo, do transporte, do preço dos aluguéis e reclamam de reclamar.
  33. Aqui eles tem várias palavras inglesas no vocabulário como weekend, wifi, happy hour, mas tem que falar com o sotaque francês.
  34. Aqui na França eles não gostam de desodorante, dizem que resseca a pele.
  35. Aqui na França você pode fazer muita coisa sem precisar realmente falar com ninguém, você pode passar suas compras no supermercado sozinho, fazer seu pedido no macdonald's sozinho, pedir a pizza pela internet.
  36.  Aqui todo mundo assoa o nariz na frente dos outros, na rua, na aula, no restaurante no ônibus.
  37. Aqui na França você passa 2 anos recebendo o seguro desemprego, já conheci mais de um francês que diz que adoraria ser demitido.
  38.  Aqui na frança todo mundo usa roupa preta ou tons sóbrios, um passeio no metrô parece o caminho para um velório.
  39. Aqui todo mundo está sempre lendo ou escutando música no metro.
  40. Todo pedinte de metrô toca aquela música italiana Volare.
  41. Aqui na França tudo fecha no verão, restaurantes, bares, até o chaveiro da esquina fechou um mês inteiro para o verão.
  42. Aqui na França tem aquecedor em todo transporte público, mas não tem ar-condicionado para os dias de verão e as janelas não abrem.
Com certeza tem muito mais coisas peculiares no comportamento francês se alguém se lembrar de algo...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A lágrima

Talvez eu precise fazer terapia de novo...

Mas aqui escrevo, me desnudo e me descrevo, para tentar me entender e controlar meus canais lacrimais que parecem ter vida própria e atirarem essas pequenas gotas d'água, pedaços de alma, de coração, de dores e amores, um misto de passado e presente que insistem em borrar a visão do que vem à frente...

Essas lágrimas me embaçam a vista, lavam-me as lentes e borram a maquiagem. Mas, é como se parte de mim se regozijasse nesse choro, como se o conforto da tristeza e melancolia conhecidas fosse preferível ao desconforto de uma felicidade desconhecida. E sofro gostando, formando e comprovando teses de que a felicidade só existisse para fazer somar uma tristeza lá na frente. E, minha alegria quando vem já vem assim, metade triste, metade lágrima, e cada lágrima é também metade alegria, e cada chorar metade riso...

E sigo assim uma contradição inteira, chorando para não rir e rindo para não chorar, transformando alegrias em tristezas e lágrimas em sorrisos. No fim, como boa brasileira nada mais sou que um samba onde a felicidade nada mais é que uma gota de orvalho, que como uma lágrima cai e ecoa numa página borrada de águas de olhos, criando poesia, poesia de tristeza...

"A lágrima clara sobe a pele escura
à noite, a chuva que cai la fora..." 

sábado, 21 de julho de 2012

On the road ou comendo sem rezar e amando sem pecar...

Longe de mim ser uma personagem Kerouaquiana, mas parti, de novo, pus o pé na estrada, e eis que retorno feliz, contente e cheia de calos. Longe de mim ainda ser a autora do próximo Comer, Rezar, Amar, mas não nego que viajar é viajar em si mesmo, é se conhecer um pouco mais e descobrir uma você que nem você sabe que existe. E foi nesse jeito meio On the road, meio comendo, rezando e amando que fui escrevendo, de início timidamente, frustrada com os limites de um orçamento estudante. Depois apreciando cada palavra e frase, como uma fotografia tirada, mas fotografia que não retrata a beleza física de lugar nenhum e sim o que senti, o que vivi, fotografias da alma...


Antibes, 03 de Julho

Agora viajo só e na casa de outros me encontro, estranhos me recebem, me acolhem, me alimentam, Sinto que não viajo mais para ver lugares mas para conhecer gentes, vidas, quem sabe para enfrentar de cara meu medo da solidão?
Saindo dessa tristeza que não tem fim e entrando nas finitas alegrias tenho que dizer que vi de tudo nesse início de viagem. Natureza, cidade, vilarejos, vistas, principados porches e casinos. Nice me ganhou com sua vila viéia às 8h da manhã, aquele multidão de turistas ainda dormia o sono despreocupado daqueles que não sofrem com os gastos das alegrias mundanas. Essa alma solitária que aqui vos fala perambulava metade melancolia, metade alegria.

Zadar, 06 de julho

Antes de entrar nesse primeiro dia croata, terminarei de narrar minhas aventurar francesas. Apesar do choro dos quebrados e da ruína financeira, do cansaço físico e dos temores, a experiência foi mágica e nova. Primeiramente viajar com alguém que muito gosto e admiro ainda que pour um fim de semana. Permiti-me um pouco mias, sem programas fixos fomos indo, descobrindo aos poucos. Passamos a primeira noite em um pequeno stúdio, quente e apertado, porém detentor de um calor humano sem igual. Nosso anfitrião, tão estranho àquela terra quanto nós, nos acompanhou em nossas peripécias automobilísticas. Em Vence apaixonei-me, em Èze enchi-me de melancolia, em Mônaco, de desapontamento. Para, em seguida, com o coração apertado despedirme e seguir sozinha o resto do meu caminho.
Em Antibes, o casal franco-japonês me acolheu em suas vidas, compartilhou seus amigos, suas fotos, contou-me como rodaram o mundo. Amando-se sem poder comunicar-se na sua plenitude, ensinando e aprendendo. Com eles caminhei pelo Cap d'Antibes, cansada cheguei à praia onde pude banhar-me, não sem ser paquerada devido à exibição da minha figura não européia.
Um à parte, porém, sobre Marseille e meu anfitrião, um pouco apreensiva segui para a casa de senhor  de 63 anos, mais jovem do que eu certamente! Levou-me às calanques, quanto medo! Já de início pegamos a estrada de moto, em seguida caminhamos e logo ele viu que essa jovem urbana não pode muito e partiu à procura de um caminho dito mais fácil. Chegamos no topo e a facilidade acabava ali. Olhei para baixo e apavorei-me, - não desço!! Desci, com medo, queria chorar, gritar a cada passo, pedia penico, queria mamãe!!! Mas não morri e lá cheguei, na bela Calanque d'en Veau, lugar intocável onde Yemanjá tira as férias da agitada Bahia. Esse senhor de 63 anos, meio paizão, vozão, enfim, me fez ver que realmente a vida tem muito a dar. Ouvi relatos de viagens sem rumo, sem programa, coisa que desejo mas temo. De repente, seja essa minha próxima calanque a ser explorada.



Zadar, 07 de julho
Parto então para a Croácia com pouco dinheiro e muitas dívidas, com a dúvida do devo ou não devo. Mas parto. Logo no avião descubro uma brasileira, carioca, que assim como eu só viaja. Juntas exploramos a pequena Zadar. Por um dia apenas viajamos acompanhadas. Companheiras de viagem. Melhores amigas de 24h. Com ela conheço um brasileiro que não falha em nos dar um bolo. 
Em Zadar, o órgão marítimo é algo de fenomenal. A brisa, as ondas do mar tocam, cantam num instrumento criado para elas. A música varia com o humor do Adriático. Ora chateia-se e grita, berra, diz: saiam daqui! Deixem-me em paz! No por do sol acalma-se e delicia-se com aquela bola vermelha que lhe adentra. Talvez para um cego o mar possa ser compreendido por essa sinfonia. São as palavras da mãe d'água ou ainda do Poseidon, dada a proximidade com a terra dos deuses...
No por do sol conhecemos um casal de mineiros que fazem o trajeto inverso ao meu, nos fotografamos e partimos. Na noite, o Garden com ses futons e camas é o cenário da despedida das canadenses, simpáticas e felizes viajantes. As brasileiras, no entanto, ainda seguem rumo à uma pizza com preço pouco e tamanho muito e assim despedem-se, trocando livros de rosto e promessas de reencontros no país do carnaval.
Eis que chega o último dia na calma Zadar, não sem antes derrubar o celular do alto da beliche. O quarto é agora multinacional : Brasil, Inglaterra, Holanda e Suécia encontram-se pacificamente, fora das disputas olímpicas e trocam dicas, conselhos e memórias de viagem. Parto então a esperar a hora de ir-me. E agora a escrita encontra o momento atual, sentada na beira mar observo o azul Adriático. Sinto fome. Assisto a vida passa. Próxima parada: Split.
 

sábado, 28 de abril de 2012

Stop the Mimimi

Ia escrever um texto aqui, sobre cotas ou políticas públicas da cultura, ou ainda a minha impossibilidade de avançar na minha dissertação... Daí percebi, eu só ia continuar o mimimi...


terça-feira, 24 de abril de 2012

Entre apostas, velhos e novos mundos

São 1h20 da manhã desse 25 de abril, data que não significa absolutamente nada, mas por algum motivo eu achei relevante destacar...

Há 7 meses parti, parti com lágrimas nos olhos, com coração apertado, parti com esperanças de no velho mundo encontrar a nova eu. E aqui estou no velho mundo e continuo a velha eu. Protelando cada decisão, cada momento importante, temendo viver mais, tentando não cair em velhos hábitos.

Nesses 7 meses, que tão rápido passaram e que como esse 25 de abril pouco significaram. Aprendi um pouco mais, talvez sobre mim, talvez sobre a vida. Menos esperançosa do que no dia 1, compartilhando desconfortos que outrora foram tão desejados... Como o sol e a chuva se alternam, rido e chorado. Mantendo os cordões umbilicais... Sim, como um bebe prematuro tenho experimentado as dores e as delícias da minha desejada vida européia.


Se outrora tudo era Vie en rose, agora a Vie está em todas as cores. E tenho que admitir, elas não são todas algodão doce. Mas como poderia eu, aproveitar o rosa dos dias, sem passar pela neve e pelo inverno. Sem tremer de frio e de raiva. Como poderia eu ficar feliz pelas conquistas sem obstáculos? E confesso eles são poucos e muitos. Poucos para quem de fora vê e aconselha, cobra e incentiva, pois apostando está, e teme perder... Temo ainda mais, afinal sou a aposta posta na mesa, e ganhando o apostador, ganha sentido a aposta.

Assim fico entre o medo e a coragem, a vontade e a inércia... O cérebro que ferve e o corpo que procrastina. Entre o riso, o choro e o absolutamente nada. Esperando, agindo... Enfim, seguindo...

Just Keep Walking...

domingo, 1 de janeiro de 2012

Novo ano...

Engraçado como um simples se pôr e nascer do Sol pode representar tanto para nossa vida ocidental... E eis que me vejo fazendo balanços da minha vida, como se tanto tivesse a balançar assim... Me pego com aquela jovem e ingênua esperança de que sim esse ano vai ser diferente, vou comer mais vegetais, vou fazer algum esporte, vou estudar mais, vou amar menos os outros e gostar mais de mim.
 
E tudo isso porque se ontem era dois mil e onze, no último dia do ano a gente soma e subtrai, divide e multiplica os 365 erros e acertos, sorrisos e lágrimas. Hoje, em dois mil e doze vislumbro 365 dias em branco, 365 possibilidades de erros e desejos de acertos, 365 lágrimas a derramar para cada tentativa de sorriso... 365 gargalhadas para cada choro...
 
E como gostamos de começos em branco, de viajar com pouco peso, tiramos esse dia um do mês um para esquecer aquilo que passou, para nos permitir começar de novo, muitas vezes errando os mesmos erros na tentativa de novos acertos, mas tentando acertar sempre, tentando rir mais do que chorar, levantar a cada queda, sonhando em nunca cair.
 
Primeiro gravo na alma aquelas lembranças das pessoas que contribuíram, dos momentos que fizeram valer os 365 dias passados. Em seguida vou criando a minha lista de desejos, que vão desde aqueles quilinhos detestáveis  aos sonhos megalomaníacos de "auto-resolvimento", 365 itens não seriam suficientes para minha lista, nem 365 listas seriam suficientes para todos os meus sonhos. Mas aposto que no fim só almejo descobrir como mudar e continuar sendo eu mesma, na vontade de acumular mais qualidades sem perder os defeitos que fazem de mim, eu.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O príncipe encantado...


A gente cresce assistindo a desenhos animados, contos de fadas, com sapos que viram princípes, mendigos que viram príncipes, feras que viram príncipes, se bobear até pedra tá virando principe só para fazer a felicidade das mocinhas de plantão. Ingênuas, somos levadas a acreditar que animais, insetos e objetos inanimados, transformam-se naquela figura máxima do amor romântico: o príncipe encantado.

A mocinha está feliz e despreocupada, normalmente cantarolando nas florestas, lendo nos vilarejos, cozinhando e estudando, nenhum membro da realeza povoa seus sonhos. E então deus ex machina entra em ação(ou diabo ex machina nesse caso), a mocinha é jurada de morte, envenenada por uma maçã, atormentada por irmãs postiças, ou ainda cai em sono eterno. Oh! e agora que fazer? E eis que do horizonte surge um jovem bonito e galante, montado em um cavalo branco, e com um beijo do amor eterno salva a pobre e indefesa vítima de  sua triste sina, e juntos cavalgam ou voam rumo ao infinito do happily ever after! 

Porém o que esquecem de nos contar é que fora das telas a história tem outro sentido, por experiência própria sei que é assim:

Eis que surge o príncipe encantado, feliz e sorridente a mocinha se perfuma, se pinta, sobe num salto alto e vira frequentadora assídua do depilador. Juntos cavalgam no cavalo branco rumo ao felizes para sempre!

- E agora, o filme acabou?

- Não.

No caminho daquele sol no fim da estrada dourada (o felizes para sempre) o príncipe vira fera, vira sapo, vira até mendigo e a gente começa a desejar que vire pedra. A vítima, ingênua mocinha de outrora, vê as maçãs vermelhas derreterem em venenos eternos, o surgimento das rivais (vulgo irmãs postiças). Na espera de que o sapo volte a ser príncipe cai em sono eterno. A pobre sofre, come o pão que o diabo amassou, não entende a vida pós-final feliz... 

Olha pela janela da sua prisão do felizes para sempre: os jardins, os pássaros, as maçãs vermelhas, os tapetes encantados, as bibliotecas... A heroína (que já fora mocinha e virou vítima) coloca então sua capa vermelha e sai cantarolando à procura do lobo-mau, príncipe nunca mais!



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Sobre como esvaziar armários...

 O último mês... Bem que a canção diz que "amanhã já é janeiro para quem partiu em agosto" imagina pra quem partiu em setembro?

Tanto já aconteceu desde que aqui cheguei... 

Foi com o coração apertado que pisei os pés nessa terra, medo de seguir em frente e trilhar o caminho que me separava de seres queridos... Medo de saber o que me espera, e medo de não saber absolutamente nada... 

Paralisada fiquei, o corpo aqui, o coração lá. Eu que sempre adorei esvaziar armários e livrar-me do que me abarrota, agora abraçava agora o mesmo armário, assustada, estava cheio de coisas lindas e caras, mas de que serviriam em um clima tão diferente... 

Não! Me recusava a abrir a porta, com medo de que algo caísse, caminhava assim arrastando um item tão pesado e com pouca utilidade, me sugeriam abrir espaço para os novos itens que chegavam. Me diziam que não cabia tudo, e eu afirmava que eu dava um jeito, meu armário é igual a mala de Mary Poppins!

Mas eis que o clima muda, chuvas vem, sóis se põem, e tudo que é madeira eventualmente estraga... Agora tão pesado, ele começa a se desmontar, olho para trás e vejo que uma porta ficou pelo meio do caminho, em seguida outra... 

Posso ver seu interior, objetos velhos, puras recordações às quais nos apegamos com medo de construirmos outras, lado a lado com os novos objetos adquiridos nessas novas andanças... Olho para frente e vejo quão longo é o caminho, olho para os meus itens de recordação, algo tem que ficar para trás ou ficarei eu!

Começo então a redescobrir o prazer de armários vazios, cheio de espaço e aquela vontade gostosa de preenche-lo com tantas outras coisas, que pode até ser que fiquem pelo caminho logo ali na frente, mas a graça é adquiri-las! Reorganizo-o, parafuso as portas de volta, empilho tudo aquilo que é velho, usado e empoeirado. O caminho agora é tão mais leve...

"A gente ri, a gente chora e joga fora o que passou
a gente ri a gente chora e comemora o novo amor..." 



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sobre profetas, madalenas e caretas

Sei que devemos fugir de temas polêmicos… Deveria me ater àquilo que não sei, falar de amores e autodescobertas, do que ousar falar daquilo que sei menos ainda... Mas às vezes não posso me controlar...

Apesar de ser anti-religião, como qualquer boa moça pequeno burguesa nascida na Bahia tive contato com ela... Fui batizada, assisti a casamentos, fiz primeira comunhão, vi missas de sétimo dia... Sempre me perguntei sobre ele, ou seria ELE? Sim, aquele mesmo que nasceu sem pai biológico e troca de fluidos, que desafiou as leis da gravidade e do bom senso.

Sim, ele me parece ter sido no mínimo um cara legal.

E vejo o que dizem por aí em nome DeLe, pregam que alguns coitados desafiadores de uma certa moral (que não se sabe de onde vem nem para onde vai) não serão salvos (de que, também não se sabe) são filhos do belzebu aqueles que aderiram ao látex, que utilizaram hormônios artificiais e acima de tudo que ousaram amar no mais completo sentido da palavra seu verdadeiro semelhante.

O que me dói é que ele era sim um cara legal. Dizem que vai voltar... Me pergunto como, voltaria defendendo alguma moral? Gritando nas ruas com um pequeno livro preto embaixo dos braços? Crucificando outros que assim como ele desafiam as regras de seu tempo?

Engraçado que para mim talvez ele tenha sido o primeiro vanguardista, naquele sentido mesmo de estar um passo a frente de sua geração. Moderno, negou-se a seguir as regras e ao invés de apedrejar, abraçou aquela que estava em desacordo com a moral. Dizia atirem a primeira pedra aquele que não pecou, e não ele também não atirou, porque será? Fez amizade com criaturas do submundo, convidada todos a segui-lo, todos de mente aberta.

Foi a vaca profana que pôs os cornos pra fora e acima da manada, recusando a pastar a grama que lhe davam, e gritou: o leite mau na cara dos caretas. Se alguém não teve vez em seus discursos foram eles, os caretas que não entendiam sua proposta, que cegos pela moral a seguiam sem questionar. Vislumbro ele hoje, cabelos longos, chinelos de couro, bandeira colorida no braço defendendo as novas criaturas apedrejadas. Ele trouxe o pensar, o questionamento, perguntou porque apedrejar essa pessoa, se seguindo ao pé da letra todos nós merecemos uma pedrada vez ou outra? Pregou um mundo livre de julgamentos, amemos os semelhantes, dizia.

Agora a manada grita uníssona contra todos aqueles que ousam por os cornos pra fora. Mastigam o que lhes é dado sem questionar, esperando encontrar uma salvação (talvez deles mesmos, talvez do pasto e da manada).

Mas talvez esteja errada, ele, sendo o cara legal que foi, no máximo diria gotas de leite bom na minha cara, chuva do mesmo bom sobre os caretas...






sem mágoas estamos aí...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A dança da cadeira

Outrora (tenho repetido essa palavra muito por aqui) me prometi nunca mais me importar com isso, tornar-me-ia auto-suficiente (afinal eu deveria me bastar). Maldisse amores, bemdisse a solidão. Pendurei as chuteiras e me prometi parar de buscar, afinal quem não procura acha.

Mas eis que me pergunto: e quando a música parar será que serei eu a ficar em pé?

Me disseram que em pé só fico se quiser, afinal sempre tem um banquinho num canto escuro que busca alguém que sente nele. Mas logo penso que minhas costas não suportariam muito tempo um banquinho, e que preferível seria uma cadeira ou até uma poltrona. Não seja exigente! Me dizem, vc compra uma almofada e encosta na parede! Querendo poltrona não vai sentar é nunca!

Sempre quis tudo, e nunca me contentei com alguma coisa apenas. Me disseram que era medo da realidade, até a disney já culparam... E agora fico aí ouvindo a música tocar temendo dança-la a fundo e terminar sem poltrona, sem cadeira, sentada em um banquinho num canto escuro. Já disse preferir ficar em pé, mas convenhamos quem aguenta tanto tempo em pé não é? Sem música, sem dança, sem cadeira sem nada?

Eis que a música para, as poltronas foram tomadas, as cadeiras também... Sobrou para mim o banquinho, me entregam, dizem: senta querida, afinal ficar em pé não dá... Olho para ele, olho para os demais, acomodados alguns em poltronas, outros em meros tamboretes... Sento, não sento? Me oferecem uma almofada... Olho para todos os lados, não vejo nada... Olho para mim... E eis que encontro o Iphone em meu bolso, toda a playlist está lá, coloco os phones de ouvido, aperto o play...

O medo se foi, afinal a música só para quando eu quiser...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O passo...


Sempre me vangloriei de ser uma pessoa sem amarras, de não ser daqui, de não ter amor, de não ser nem da Bahia de São Salvador... Desbravadora dos quatro cantos do mundo, andarilha urbana, metamorfose ambulante...

De repente me vejo aqui, longe, milhas e milhas de distância me afastam da Marcelle que fui e me permitem ser quem eu quiser. Tenho diante de mim a estrada de tijolos amarelos, levo comigo os sapatinhos vermelhos, o coração, a coragem e o cérebro.

Mas não consigo percorrer o caminho que tanto busquei. Olho para essa estrada sem fim, a coragem me foge, o coração acelera e o cérebro derrete. Não ouso nem olhar para frente, nos pés os sapatinhos vermelhos, basta a vontade para voltar para casa, dar o passo para trás... Vontade essa que me falta. Lá onde não ouso olhar pode estar a salvação ou a perdição, pode estar o tudo, o nada ou o alguma coisa... Levanto o pé esquerdo, não consigo caminhar! Ora, mas o caminho é claro, é brilhante, dourado!

Atrás de mim? O nada! Olho para trás, estaria esquecendo algo? Não, se trouxe comigo o cérebro, a coragem e o coração que mais posso precisar? Penso eu. Talvez tenha começado com o pé esquerdo... troco pelo direito... nada de novo... Começo a me sentir um pouco absurda, ficarei ali presa no limite entre o que fui e o que quero ser? Tornarei-me uma personagem beckettiana? Amarrando os sapatos e me lamentando: -Nada a fazer...

Virá em breve o mensageiro me dizer para esperar que amanhã algo irá mudar? No meio da estrada a única coisa que pode mudar é a direção do vento... mas que importa isso, se o objetivo é apenas andar... Sair do ciclo vicioso e chegar a tar, ou ao menos tentar...

Espero... espero... espero... Não aparecem mensageiros, nem homens com guarda-chuvas, mendigos não entram de supetão cantando hinos anarquistas. Horas se passam e noto que nada irá acontecer, estou fadada à espera eterna, parada para sempre no ponto em que a coragem me fugiu.

E é nessa hora que o cérebro se recompõe e diz que só uma mudança é possível e necessária. Se nada muda então, mudo eu. Tiro os sapatinhos, recolho a coragem, desacelero o coração. Levanto o pé direito e sinto o dourado dos tijolos sobre minhas meias, o pé esquerdo vem logo em seguida. Um, dois, três passos... Dobro a esquina, não olho mais para trás...